quarta-feira, dezembro 14, 2005

coroa fúnebre



Pior do que ver um filme mau, só ver um filme mau que gostaríamos que fosse bom. Pior do que estas duas coisas, só ver o Flores Partidas.

O primeiro choque advém da realização de Jim Jarmusch, preguiçosa como não há memória. Provindo desse limbo pouco recomendável conhecido como 'cinema americano independente', Jarmusch filma com obstinação ortodoxa pela respectiva cartilha, utilizando todos os truquezinhos para 'fazer bonito', poético, teatral. O resultado é uma amálgama de cenas mal explicadas que formam, elas mesmas, o próprio filme, muitas das quais sem qualquer interesse para o que, supostamente, está a acontecer no écran, sempre a entrarem e a saírem em fade, sem um fio narrativo ou qualquer preocupação de montagem. Ou melhor, a preocupação está lá, precisamente para ser garantido o efeito profundo que se deseja para este tipo de cinema sério e alternativo.

Consciente destas lacunas (ou talvez não), Jarmusch substituiu qualquer pretensão de subtileza que poderia ter por uma exposição descaradamente abusiva do rosto de Bill Murray, inexpressivo até ao tutano, número pouco original e já visto noutro circos recentes. Para equilibrar as coisas, a esta canibalização contrapôs a proeza de ter conseguido desbaratar toda a mão-de-obra feminina de que dispunha, deixando Sharon Stone, Jessica Lange e Frances Conroy sem papel e com a inglória missão de interpretarem grosseiras caricaturas de mulheres que servem apenas para enfeitar as bermas do filme.

Apesar de tudo isto, com um pouco de condescendência é possível ir-se achando alguma graça ao filme, quer pela personagem de Murray - bem ou mal, o filme foi escrito para si - quer pelo alívio de se estar no cinema e não num centro comercial a fazer compras de Natal para as primas. Eis se não quando aparece aquele final, completamente despropositado e sem sentido. Das duas uma: ou Jarmusch não percebeu o filme e a sua própria personagem, ou acha que todos os seus espectadores são atrasados mentais e precisa de lhes explicar o que acabou de se passar com aquele homem. Não sei por qual optar, mas sei que, com um epílogo daqueles, a mais santa das almas perde a paciência e redobra a legitimidade para pôr em causa a autoridade deste fraco contador de histórias.

Para não ser completamente desonesto, ainda procurei uma segunda opinião junto da representação diplomática deste tipo de cinema, mas fiquei com a clara certeza de que víramos o mesmo filme e de que não há nenhuma obscura leitura 'artística' que me tenha escapado. Na dúvida, ainda li a crítica publicada pelo maradona, mas rapidamente senti que também não seria por aí.

Depois de Café e Cigarros, um filme em que, ressuscitando o aforismo de Wilde, uma dúzia de estrelas cool sem nada para dizerem umas às outras o diziam encantadoramente bem, Jarmusch decidiu-se por um downsizing, fazendo qualquer coisa cool em que ninguém tem absolutamente nada a dizer a ninguém. E, pelos vistos, ele também não.

4 scone(s)

Às 14/12/05 15:42, Blogger concha disse...

Oh bolas e eu que também tinha expectativas boas.

 
Às 14/12/05 16:08, Blogger carlos paulo disse...

tudo bem, não é nenhum 'brastemp', mas não é assim tão mau.

 
Às 15/12/05 00:10, Blogger lullaby disse...

Ainda dizem que eu sou castradora quando ajuízo qualquer coisa! Isto é que é arrasar ;)

Broken Flowers é uma questão de tempo esquecido, ou de esquecer o tempo, de apagar memórias, de seguir uma vida, é a história de um regresso difuso a um passado... um passado distante que inevitavelmente teima em se aproximar… e aproxima-se por episódios e afasta-se de forma fade para se apagar novamente. O julgado esquecimento quebra-se mais tarde pela lembrança em forma de sinopse de cada um desses episódios, que quanto a mim, acho que estão bem conseguidos.
Se me lembro é porque um dia me esqueci e se me esqueço é porque me lembrei que me esqueci, foi isto que o Jim Jarmusch me disse.

 
Às 15/12/05 14:20, Blogger amie disse...

humpf!

 

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